domingo, 2 de junho de 2013

RASCUNHOS SOBRE A OBRA DE SANTO AGOSTINHO




“Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação. Dize de forma que eu te escute. Os ouvidos do meu coração estão diante de tu, Senhor; abre-os e dize à minha alma: Eu sou a tua salvação. Correrei atrás destas palavras e te segurarei”.

A obra de Santo Agostinho propõe articular que a ideia de Deus, um Ser pleno, perfeito e absoluto, é uma verdade e um conhecimento universal intrinsecamente ligado ao espírito humano. Em seu livro “As Confissões”, escrito aproximadamente entre anos 397/398, Agostinho, além de fazer um relato da própria vida à luz da sua conversão, de maneira fervorosa e poética louva e clama a Deus, para que este, Senhor da Verdade, ilumine seu espírito com a revelação. Para o teólogo a alma do homem seria a “estreita morada para receber a Deus”, e só pela graça divina esta pode ser  dilatada, purificada e preenchida com a paz iluminadora. 

Para Agostinho, “Deus arrancou-se de onde nunca se retirou”, ou seja, ele afirma que o conhecimento de Deus está naturalmente presente no coração do homem, e todo ser racional pode, por meio da vontade plena, reconhecer o universo como criação Deste. De acordo com ele, a fonte da verdade gera, por assim dizer, uma espécie de apelo que nos faz buscar a lembrança de Deus em nosso interior. E por maior que seja nossa limitada razão que não consegue  abarcar, e jamais conhecerá a Deus tal como ele é, o homem deve  reconhecer e amar a Deus sob todas as coisas, pois só assim a alma, sabendo o que ela é, viverá de acordo com sua verdadeira natureza – inteligível, sagrada e eterna. 

“É, portanto a alma inteira que deve amar aquilo que somente o pensamento pode contemplar e é pelo amor assim esclarecido pela razão que a alma atingirá finalmente sua meta; não somente conhecer seu fim, mas, em certo sentido, sê-lo. É com efeito, próprio do amor que o objeto amado reaja, na alma, de alguma maneira sobre isso que ele ama para transformá-lo em sua imagem e assimilá-lo. Amar o material e o perecível é materializar-se e condenar-se a perecer; amar o eterno é, ao contrário, eternizar-se; amar Deus é tornar-se ele” (Trindade, XI).
Em sua obra, Santo Agostinho não apenas disserta com profundidade sobre como a fé é via de acesso à verdade eterna, como também visiona a sabedoria como ideal da verdade para que o homem desfrute e conheça a si mesmo e a realidade como um todo, a partir de Deus, como criador. Ou seja, a noção de sabedoria é um dos pontos centrais da filosofia agostiniana, e coloca o pressuposto que “todo conhecimento verdadeiro é resultado de um processo de iluminação divina, que possibilita ao homem contemplar as ideias, e arquétipos eternos do mundo”. (Étienne Gilson, Introdução ao estudo de Santo Agostinho).

A amplitude de sua reflexão abrangia tantas questões filosóficas e morais, entre elas, sobre a Criação, identidade do Ser, tempo e finitude, a graça e predestinação, vontade humana e livre arbítrio, existência do bem e do mal, ética e justiça, que Agostinho, é considerado o precursor da ligação entre a filosofia e o cristianismo. O pensamento de Agostinho é um importante eixo na orientação da visão do homem medieval sobre a relação entre a fé cristã e o estudo da natureza. 

Por mais que ele reconheça a importância do conhecimento e da razão, tendo em vista a busca pela felicidade intrínseca do ser, Agostinho em sua obra, não concebe a felicidade como possível separada da Verdade, ou seja, para abranger a plena sabedoria e beatitude é preciso ter a posse da verdade absoluta, na qual é o conhecimento de Deus como o Criador do universo e Bem supremo.

Segundo este grande teólogo existe uma luz eterna da razão que procede de Deus e atua a todo o momento possibilitando o conhecimento das verdades eternas. Nesse sentido, fazendo uma bela comparação, Agostinho propõe que se para ver além do olho e da coisa, é necessária a luz física, do mesmo modo, para o conhecimento intelectual é necessário uma luz espiritual. 

“Assim como os objetos exteriores só podem ser vistos quando iluminados pela luz do sol, também as verdades da sabedoria precisam ser iluminadas pela luz divina para se tornarem inteligíveis”. (Confissões, Livro III).

Contudo, ele pontua também que a iluminação divina, não dispensa o indivíduo de ter um intelecto próprio, ou seja, a iluminação incide sobre o intelecto com o intuito de direcioná-lo ao caminho do bem, porém todo o percurso a ser trilhado deve ser feito pela vontade do homem, de pensar e agir em virtude de uma ordem natural provinda de Deus.

 A fé, de acordo com ele, não diminui em nada a penosa força dos argumentos racionais, usados para demonstrar a existência de Deus e seus indícios, pelo contrário, ela o ajuda a descobrir mais claramente a racionalidade neles.

Agostinho entende que é a fé em Cristo que restaura a condição decaída da razão humana, é o conhecimento e aceitação de Deus como bem supremo que sana a alma das suas deficiências e corrige a razão para melhor orientá-la à solidez da Verdade.

 Para o teólogo a alma do homem é livre para escolher qual caminho seguir, porém Agostinho afirma que muitas vezes o homem faz mau uso do livre arbítrio, e inverte a transcendência hierárquica da alma sobre o corpo, e assim voltada e aliciada pela matéria, esta acaba por sucumbir ao contato com o sensível, e aos poucos vai “esvaindo-se no não-ser e considerando-se a si mesma como um corpo”. 

De acordo com Agostinho a alma que peregrina por muito tempo longe da luz, distante de Deus, corre um sério risco de torna-se cega. Seguindo esta linha de pensamento, é como se a alma, fosse - por vontade própria - na contramão de Deus, na direção das coisas terrenas, carnais e sensíveis, assim esta vai se dissipando e se reduzindo ao nada, na medida em que se afasta da unidade divina para se entregar a “inúmeras bagatelas”.  

Em diversos momentos Agostinho pontua que a vontade do homem é essencialmente criadora e livre, e nela tem raízes a possibilidade de o homem afastar-se de Deus. “Tal afastamento significa, porém, distanciar-se do ser e caminhar para o não-ser, isto é, aproximar-se do mal”.
Agostinho acredita que sem o auxilio da graça divina, o livre-arbítrio tende a eleger o mal e viver sob a defeituosa sombra da formosura dos vícios. Isso ocorre, pois o homem é um ser limitado, e pode agir desordenadamente e imoralmente contra os desígnios de Deus. Deve-se considerar, contudo, que esta ação não é causa eficiente, mas deficiente, pois é uma ação em direção ao “não-ser”, ao mal, contra a natureza do Ser, que é Deus.
Porquanto o mal não tem realidade metafísica e segundo o pensador só pode unicamente provir do homem, livre e limitado, e não de Deus, que é puro ser e produz unicamente o ser, ou seja, o Bem.

O pecado, nesse sentido, só pode prejudicar a criatura sob a pena da desordem, que, não podendo lesar a Deus, prejudica somente a si mesma, determinando a dilaceração da sua própria natureza. 

 Assim, verdadeiro mal, princípio dos outros males é o pecado que consiste na ausência do amor de Deus. Somente por meio da graça, é que a alma dirige-se para o bem eterno. Caso um novo desejo e novas graças não surjam para mais uma vez elevarem a alma do homem até Deus, esta cairá de vez na concupiscência e na ignorância.

Mas é justamente esta batalha da alma contra as paixões e seduções dos vícios terrenos que nos aproxima muito de Santo Agostinho, pois ele em toda sua obra, com foco nas “Confissões”, nos revela intimamente sua torturante luta interior antes de encontrar o altar da fé.  A alma de Agostinho sofria das mesmas paixões, das mesmas angustias e dúvidas que geralmente borbulham no espirito humano. 

“O inimigo dominava meu querer, e dele forjava uma cadeia com que me apertava. Ora, a luxúria provém da vontade perversa; enquanto se serve à luxúria, contrai-se o hábito; e se não se resiste a um hábito, origina-se uma necessidade. Era assim que por uma espécie de anéis entrelaçados – por isso lhes chamei cadeia –, me segurava apertado em dura escravidão. A vontade nova, que começava a existir em mim, a vontade de Vos honrar gratuitamente e de querer gozar de Vós, ó meu Deus, único contentamento seguro, ainda se não achava apta para superar a outra vontade, fortificada pela concupiscência. Assim, duas vontades, uma concupiscente, outra dominada, uma carnal, outra espiritual, batalhavam mutuamente em mim. Discordando, dilacerava-me a alma” (Confissões, Agostinho. 2000:209)

Segundo ele, que suspirava e suava pela verdade com cada fibra de seu ser, o coração do homem vive inquieto enquanto não repousa nos braços da verdade suprema; e para alcançar tal plenitude o homem precisa reeducar sua vontade para voltar ao seu lugar de origem natural, a sua pátria. 

O indivíduo precisa, portanto, buscar a graça de Deus com humildade e pedir para recebê-la.  “Aceitá-la é a verdadeira maneira de conquistá-la”. Quando Agostinho diz isto, mais uma vez afirma que a salvação mais se encontra no espaço espiritual interno, do que externo, pois na medida em que reconhece Deus dentro de si, o ser é tocado pelas mãos da Verdade eterna.
Mas atingir esta beatitude não é nada fácil, pelo contrário, poucos conseguem aderir à solidez da Verdade, pois, segundo Agostinho, a maioria prefere “roçar miseravelmente aos objetos sensíveis” a ponto de não distinguir mais o que é o amor sereno do prazer tenebroso ou mesmo até muitos sentem os indícios de Deus no mundo, porém estando de costas voltadas para a luz e com a face erguida para os objetos iluminados, só conseguem vislumbrar a beatitude, pois o rosto com que vê os objetos divinos não é realmente iluminado, já que não está voltado na direção de Deus.

Nesse sentido, para abarcar a sabedoria plena, que é Verdade pura e absoluta é preciso que a graça divina floresça no interior do ser e assim tocado pelo divino, o coração carregado de vontade busque se distanciar cada vez mais das coisas terrenas e finitas para clamar e louvar por Deus, criador do bem, do universo e infinitamente presente em cada partícula do tempo e do espaço. 

“Para lá chegar não se vai de navio, de carro ou a pé, nem sequer para andar o caminho que tinha percorrido desde a casa ao lugar onde estava sentando. Com efeito, não só o ir ao céu, mas também o atingi-lo não são mais que o querer ir, mas um querer forte e total, não uma vontade tíbia que anda e desanda daqui para ali, que luta consigo mesma, erguendo-se num lado e caindo no outro”. (Confissões, livro XIII)

Desta forma, quando o homem está disposto, aberto e entregue para receber humildemente a luz do conhecimento da existência de Deus, este dependendo da graça, recebe a Verdade, tendo suas fraquezas curadas, suas frouxidões reformadas e tua podridão reflorescida no campo fértil de Deus. 

Agostinho no trecho que segue descreve justamente sobre esta purificação do homem, quando é permitido por Deus que o corpo carregado de pecados se transforme em alma sem iniquidades. “Não escondas de mim a tua face: que eu morra para contemplá-la e para não morrer! Minha alma é morada muito estreita para te receber: será alargada por ti, Senhor. Estás em ruínas: restaura-a! Tem coisas que ofendem aos teus olhos: eu o seu e confesso . Mas quem pode purificá-la? A quem, senão a ti, eu clamarei: Purifica-me, Senhor, dos pecados ocultos, e perdoa a teu servo as culpas alheias? Creio, e por isso falo, Senhor: tu o sabes. Não te confessei contra mim as minhas faltas, meu Deus, e não perdoaste a maldade do meu coração? Não discuto contigo, que és a verdade, e não quero enganar a mim mesmo, para que a minha iniqüidade não minta a si mesmo. Não discuto contigo porque, se te lembrares de nossos pecados, Senhor, quem suportará teu olhar?” (Confissões, 2000).

O filósofo descreve em sua obra belas metáforas para purificação a alma, entre elas, afirma que o primeiro grau de cura da alma é remover a flecha que causa incômodo, ou seja, fazer a remissão dos pecados. O segundo grau será curar o próprio ferimento, o que se faz lentamente com o progresso realizado na renovação da imagem interior.

Aliás, a descoberta do homem interior é o alicerce de toda a obra Agostiniana.  Agostinho afirma que o homem que vive apenas das coisas exteriores, esvazia-se de si mesmo, mas quando interioriza, quando entra em si mesmo, quando se recolhe e penetra precisamente naquilo que é o homem interior, o mundo interior, é justamente ai que se encontra Deus.

Para Agostinho é preciso levar a sério que o homem é a imagem e semelhança de Deus, sendo que, o primeiro passo para encontrar a Verdade é a busca da sua imagem dentro de si, sua natureza divina dentro da intimidade do homem. “Os homens saem para fazer turismo, para admirar o pico das montanhas, o marulho das ondas dos mares, o fácil e copioso curso dos rios, as revoluções e giros dos astros. Entretanto, não olham para si mesmos” (Agostinho)

O filósofo de Hipona afirma ao longo de toda a sua obra que só podemos amar a Deus, quando a alma recorda, compreende e ama aquele por quem foi criada. O pesquisador Evilázio Francisco Borges Teixeira, em seu livro ‘Imago trinitatis’ contempla essa visão Agostiniana sobre importância da interioridade.

“Embora invisível, a missão divina é uma presença que se manifesta. Somente que esta manifestação é puramente interior que se produz no interior da alma, quando esta se recolhe para se ver como imagem e elevar-se à contemplação do Verbo. A alma experimenta, então, em si mesma, a presença do Verbo-Sabedoria” (Evilázio Borges, Imago Trinitates, 2003)

Nas confissões de Santo Agostinho fica claro que para encontrar a Verdade iluminadora é preciso fazer uma intensa incursão dentro de si mesmo, pois segundo ele andar por dentro é desejar as coisas de dentro, já andar por fora é desprezar as coisas de dentro e encher-se das de fora. “O orgulhoso lança fora o que tem dentro; o humilde o busca com afã. A soberba exila o homem de si mesmo; a humildade o devolve à sua intimidade”.

Finalizo com um trecho de Agostinho, na qual ele descreve efusivamente seu encontro com Deus, que de dentro para fora o iluminou e rompeu a nódoa da sua alma antes cética e irrequieta.
“Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova. Tarde Vos amei! Eis que Habitáveis dentro de mim, e eu, lá fora, a procurar-Vos! Disforme, lançava-me
sobre estas formosuras que criastes. Estáveis comigo e eu não estava Convosco! Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria, se não existisse em Vós. Porém, chamastes-me, com uma Voz tão forte, que rompestes a minha surdez! Brilhastes, cintilastes, e logo afugentastes a minha cegueira!

Exalastes Perfume: respirei-o, a plenos pulmões, suspirando por Vós. Saboreei-Vos e, agora, tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e ardi no desejo da Vossa Paz”

 - Com o Coração se pede. Com o Coração se procura. Com o Coração se bate. E é com o Coração que a Porta se abre.

B.G

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