domingo, 2 de junho de 2013

Um pálido reflexo do homem pós-moderno





Na medida em que a razão instrumentaliza-se o homem pós-moderno vem sendo expropriado de si mesmo. Creio que podemos inferir no trecho do filósofo alemão Robert Kurz, justamente sobre a perda da identidade do indivíduo contemporâneo, que “se vê completamente anulado em face dos poderes econômicos”. (Adorno e Horkheimer, Dialética do Esclarecimento, tradução de Guido Almeida, Jorge Zahar, 1985, pág. 14).

Não tenho dúvidas que o esclarecimento e a “luz” da razão trouxeram inúmeros benefícios para a sociedade, porém devemos nos perguntar a que preço, pois se formos colocar na balança, diria que nada é mais valioso que a nossa subjetividade, pois esta é o alicerce, é a alma do Homem. E infelizmente, em nossa sociedade desfigurada pelo capital, a moeda de troca para atingirmos a enaltecida “emancipação do homem” é nos tornar escravos da razão técnica a serviço do capital.

Antes de me debruçar um pouco mais sobre a perda da nossa identidade autônoma para o mercado, devo dizer que fiquei instigada com o texto de Robert Kurz, pois não havia pensado com profundidade ainda (se é que agora penso, sic), no quanto esse mesmo sistema tirano que subjuga os colonizados ou operários modernos, que sustentam o capital, também algema de alguma forma os “supostos senhores desse modo de produção”.

A lógica do capital vem se tornando tão autossuficiente e tirana que os próprios senhores vêm sendo paulatinamente consumidos pelo ideal racional mercantil que eles - homens esclarecidos - criaram. Os filósofos Adorno e Horkheimer, na Dialética do Esclarecimento estudaram exatamente como esta máquina capitalista vem mutilando até mesmo os senhores que dela se alimentam.  

A razão mercantilista e instrumental vem fugindo de si mesma, esvaindo-se da sua essência e autoconsciência de tal maneira que força Horkheimer admitir que a “máquina expeliu o maquinista; e está correndo cegamente no espaço”. Sem controle esta vem desvirtuando o sentido perene da razão e sendo alimentada pelo signo da irracionalidade. Essa barbárie moderna foi construída em cima de uma razão plastificada e dominadora que se amolda perfeitamente hoje aos interesses da lógica sombria e desumana do capital

“Sua necessidade não é menos aparente do que a liberdade dos empresários, que acaba por revelar sua natureza compulsiva nas lutas e acordos a que não conseguem escapar. Essa aparência, na qual se perde a humanidade inteiramente esclarecida, não pode ser dissipada pelo pensamento que tem de escolher, enquanto órgão da dominação, entre o comando e a obediência. Incapaz de escapar ao envolvimento que o mantém preso à pré-história, ele consegue no entanto reconhecer na lógica da alternativa, da consequência e da antinomia, com a qual se emancipou radicalmente da natureza, a própria natureza, irreconciliada e alienada de si mesma” (Adorno e Horkheimer, Dialética do Esclarecimento, Excurso I, tradução de Guido Almeida, Jorge Zahar, 1985, pág. 49)

Estes pensadores aprofundam a reflexão afirmando que os senhores do esclarecimento tendem a confundir liberdade com a busca da autoconservação. Ou seja, eles acreditam ser livres porque dominam e colonizam o mundo, porém nada mais são do que objetos da própria razão dominadora que criaram, são instrumentos da mesma natureza das quais dominam. A grande diferença entre estes e a massa operária do sistema, é que têm a alternativa de escolherem se querem estar no comando ou serem obedientes servos nas mãos de outros senhorios, também presos pela própria forca que inventaram.

Fora este pequeno farelo de liberdade, o burguês esclarecido, o neocolonizador, o homem branco engravatado, se vê refém da mesma violência que modela a sociedade industrial, a diferença é que este come caviar, numa imensa gaiola dourada, mas ainda sim continua aprisionado. A verdade é que a natureza dominadora instalou-se nos homens, e independente das classes, esta formata e ajusta a sociedade como um todo para se adaptar a razão instrumental.

E assim voltamos a cerne da questão abordada por Robert Kurz.  Aqueles senhores que desejam se conservar no comando, para se auto conservarem e legitimarem a dominação coadjuvante que causam, precisam ser ajustados em sua interioridade para se adequarem a lógica da funcionalidade imposta pelo sistema.   

E é nesse processo, que a subjetividade do ser, vem sendo esvaziada e coisificada para responder aos interesses da razão técnica. Esta razão nada ética ou justa está a serviço de um sistema neoliberal que mastiga e retalha o homem a seu bel-prazer para logo em seguida cuspi-lo fragmentado e reformulado, com uma nova identidade.

Este processo é observado por Adorno e Horkheimer, que percebem que tanto o indivíduo na Grécia Antiga quanto homem contemporâneo com a promessa de obter o esclarecimento, com o fim de “livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores”, e “dissolver os mitos e substituir a imaginação pelo saber”, acaba por se sacrificar para se autoconservar. Mas é bom lembrar que esta renuncia e sacrifício são rigorosamente calculadas para garantir ao herói antigo e ao burgues sua proteção, “retorno à pátria e aos bens sólidos”. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 56).

No excurso I, Adorno e Horkheimer continuam sua reflexão sobre a necessidade de sacrifica-se para dominar a natureza e os próprios homens. “Na história das classes, a hostilidade do eu ao sacrifício incluía um sacrifício do eu, porque seu preço era a negação da natureza no homem, em vista da dominação sobre a natureza extra-humana e sobre os outros homens. [Com isso], não apenas o telos da dominação externa da natureza, mas também o telos da própria vida se torna confuso e opaco” (ADORNO; HORKHEIMER, 1991, p. 60)

Este trecho da dialética casa perfeitamente com o pensamento de Robert Kurz, afinal ele diz que o próprio vencedor e conquistador deve também destruir a sua capacidade sensível de fruição, ou seja, sacrificar-se. “Quanto mais avançava na colonização do mundo exterior, tanto mais o homem branco precisava ajustar a si mesmo, e quanto mais assim se ajustava, mais precisava colonizar o mundo”. (Robert Kurz, Supressão e conservação do homem branco).

 O sacrifício do próprio individuo para dominar a natureza e realizar suas vontades “esclarecedoras”, converte-se em dominação com o fim último do lucro, seja no passado longínquo ou na atualidade. Ao analisar exaustivamente a antiguidade e as peripécias de Ulisses na Odisséia, Adorno e Horkheimer traçam um paralelo para entender como “a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova espécie de barbárie” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 11).

Esta barbárie se configura devido o grande distanciamento da moralidade com esclarecimento, que transformando o potencial do progresso em anti-razão, acaba por fazer outra relação, progresso com violência e crueldade como pulsão para satisfazer necessidades inconscientes do ser. Com isso mais uma vez retomamos ao mito, ao mundo primitivo.

“A anti-razão do capitalismo totalitário, cuja técnica de satisfazer as necessidades, em sua forma objetualizada, determinada pela dominação, torna impossível a satisfação das necessidades e impele ao extermínio dos homens – essa anti-razão está desenvolvida de maneira prototípica no herói homérico que se furta ao sacrifício sacrificando-se. A história da civilização é a história da introversão do sacrifício. Ou por outra, a história da renúncia. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 61)

Esta dominação neurótica e as avessas se tornou tão poderosa e necessária para sujeitar a natureza exterior, humana ou não-humana, que o sujeito precisou subjugar a natureza dentro de si mesmo. Assim o homem contemporâneo vem tendo sua identidade retificada para se adequar aos valores vigentes do sistema capitalista. Nesta era tecnocrática e economicista, o individuo vem sendo abstraído e ajustado aos poucos para se transformar em mero instrumento de produtividade.

Isso o ocorre, pois para o individuo se auto preservar, o sistema impõe que ele se ajuste às exigências de preservação da lógica do capital. E aqueles que se recusam a aceitar esta ordem do império neoliberal são cruelmente excluídos pelas classes dirigentes que constroem justamente estes valores a serem introjetados e seguidos.

Finalizo a questão com uma frase de Horkheimer que depois de muito analisar o passado explicita a importância dos homens contemporâneos se perceberem como a própria causa da enfermidade da humanidade, mas também a própria cura. “Até época bem recente na história ocidental, faltavam à sociedade suficientes recursos culturais e tecnológicos para gerar uma compreensão entre indivíduos, grupos e nações. Hoje, as condições materiais existem. O que está faltando são homens que compreendam que são eles mesmos as vítimas ou os executores da própria opressão”.

Como o próprio Robert Kurz pontua, o homem branco, fustigado por essa coerção cega e auto-imputada, por muito tempo conduziu seu império mundial com a crueldade inerente às relações coercitivas inconscientes. O que é preciso reconciliar, portanto é a sensibilidade com a razão, só assim caminharemos para o ideal luminoso e construtivo do esclarecimento pacifico. A loucura do passado e caos do presente nos ensina, ou melhor nos impõem uma séria mudança de paradigma. A insurreição ética dos valores humanos é o único caminho possível para a humanidade verdadeiramente se distanciar dessa barbárie “suja e encharcada de sangue” e legitimar uma civilização plena, íntegra, e sustentável.

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“Bater no peito tornou-se mais tarde um gesto de triunfo: o vencedor expressa que sua vitória é sempre uma vitória sobre a própria natureza”

Esta nota da Dialética do Esclarecimento remonta a necessidade do homem de sacrificar e renunciar os ímpetos da própria natureza interior, para astutamente dominar e obter um triunfo maior posteriormente. Nesse caso, o contexto do comentário remete-se no momento em que Ulisses percebe que suas próprias servas o traem indo dormir com os odiados pretendentes que tomaram sua casa, seus bens e praticamente sua mulher.

“Assim como a cadela valente anda em redor de seus frágeis cachorrinhos e ladra para o desconhecido, instigando-se para a luta, assim também ladrava o coração em seu peito, enfurecido pela conduta vergonhosa das servas. Batendo no coração, punia-o com as seguintes palavras: Aguenta, coração! Mais duras penas suportaste no dia em que o ciclope monstruoso devorou enfurecido meus bravos amigos. Suportaste sozinho até que, graças a um estratagema, escapaste da caverna onde antevias uma noite horrorosa!  ‘Assim falou Ulisses, punindo o coração no peito irado. Logo o coração recobrou a calma e quedou inabalável’ (Adorno e Horkheimer, Dialética do Esclarecimento, 1985, Editora Vozes, Excuso I, nota 5)

Adorno e Horkheimer percebem que no momento em que Ulisse, segura seus instintos e recobra a calma ele renuncia sua satisfação pulsional para dominar seus próprios sentidos em favor de um “olhar posto no futuro”. “O sujeito, ainda dividido e forçado a usar de violência contra a natureza tanto dentro dele quanto fora dele, "pune" o coração exortando-o à paciência e negando-lhe com o olhar posto no futuro - o presente imediato”.

 Ulisses controla seu coração que batia ansioso pela morte das suas servas, justamente para se auto conservar-se. Se o peito de Ulisses latejava rebelde, a inteligência e o discernimento dispersavam essa mesma excitação. Isso demonstra o amadurecimento da sua identidade interna, pois caso ele se entregasse aos prazeres efêmeros de sua sede por sangue, seria descoberto antes de cumprir seus designíos, que era matar os pretendentes que cortejavam sua esposa, tomar posse do seu castelo e todos os seus bens em Ítaca. 

Se Ulisses não tivesse utilizado a métis desde o início de sua viagem para retornar ao lar, provavelmente, como seus companheiros, teria se perdido no vasto mar das seduções, que tanto o golpearam para fazê-lo gozar e se entregar a natureza pulsional do ser. Com essa escolha ele estaria renunciando não só sua esposa, seu filho, seus bens e a triunfal vingança, como também, e acima de tudo, sacrificaria sua própria vida.  Por isso, o herói homérico suporta as duras penas da Odisséia e freia astutamente seus impulsos para lograr.

'Aguenta, coração! Mais duras penas suportaste no dia em que o ciclope monstruoso devorou enfurecido meus bravos amigos. Suportaste sozinho até que, graças a um estratagema, escapaste da caverna onde antevias uma noite horrorosa!" Assim falou. punindo o coração no peito irado. Logo o coração recobrou a calma e quedou inabalável. Ele. porém, continuava a revolver-se para lá e para cá.." (Canto XX. 13/24, A Odisséia, Homero, 2001).

Freud em seu livro o “Mal-Estar da Civilização”, reflete justamente como as exigências das nossas pulsões vem produzindo um mal-estar nos seres humanos. Para ele, o sentimento incontido, levado ao grau máximo de emoção causa uma agressividade que destrói a racionalidade da civilização, levando a humanidade a barbárie, ao re-encantamento destruitivo de si mesmo. Assim de acordo com Freud para o bem da sociedade o indivíduo precisa ser sacrificado, ele coloca a civilização possa se desenvolver o homem deve pagar o preço da renúncia da satisfação passional.

Assim Adorno e Horkheimer afirma que o individuo que ainda não está completamente configurado em sua identidade interna, tem seus ímpetos, seu ânimo e seu coração excitados independentemente da vontade dele, e assim são levados pela maré das paixões. Para se firmar como ser autônomo, e não apenas ser um corpo recheado de natureza e pulsões Adorno pontua que o sujeito perfura seu próprio coração com as laminas da razão. Depois que a razão consegue domar o instinto, depois que o coração foi punido pelo próprio detentor, este novo ser estremece não pela fúria da paixão mas pela dominação de sua natureza intra-humana.

No livro 1 da ‘República’ de Platão, há um diálogo entre Céfalo e Sócrates, que aborda justamente esta “paz” interior que o sujeito sente quando consegue por um fim nas paixões que o dominam. Assim Sófocles diz: “Quando as paixões cessam de nos repuxar e nos largam, somos libertos de uma hoste de déspotas furiosos”. Nesse caso especifico, as paixões foram resfriadas devido à velhice de Sófocles, que em vez de viver preso das saudades poéticas, se vê liberto das volatidades passionais que governavam seu ser da juventude a sua maturidade.

Dominado pelos seus próprios déspotas internos, o homem se transforma em joguete de seus momentos intempestivos. Este, escravo do seu próprio corpo se vê completamente debilitado de nada saber além do que a carne e os sentidos lhe proporciona. Nesse sentido, o individuo precisa fazer a escolha de ceder ao caminho borbulhante das paixões, ou dominar sua natureza para refrear os instintos e ser tornar soberano das próprias pulsões míticas.

Com isso a razão esclarecedora sobrepuja e domina o império dos sentidos, tendo assim, o Ser uma suposta aparência de “liberdade” para agir de forma ajustada aos desígnios dessa razão estética, vazia em essência que impera em nossa contemporaneidade. O intuito?  Chegar a tão idolatrada Ítaca, pouco se importando com os meios para atingir este triunfal de retornar a esta barbárie trasvestida de razão.   

B.G

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